Publicado por: Repolho | Setembro 4, 2011

Das xícaras e calendários

- Um homem de terno. “Parece apressado, ansioso. Será que espera alguém?”, pensou a xícara. Ora, xícaras não pensam, dirá você, pois eu lhe digo que esta pensa, e até que tem um raciocínio muito rápido. Pensa, logo existe. Era uma xícara de um café da Rue des Abesses, uma legítima xícara de café. Seu interior era preto como a bebida, mesmo quando não havia mais bebida dentro dela. Por fora, branca como só uma xícara de café sabe ser. Tinha o desenho de três grãos de café e, no lado oposto, o de um francês estereotipado, de camisa vermelha e boina. A xícara não conversava com o pires. Se o pires pensava, ela não sabia. Ficava absorta em seus próprios pensamentos. E neste momento pensava sobre o homem de terno, um dos muitos clientes que servira naquela tarde.
Ele parecia aguardar alguém. Olhou ao redor, olhou o relógio. Tomou mais um gole de café. Recostou-se e tentou relaxar. “Será que é a namorada que está pra chegar? E quando ela chegar, ele levantar-se-á, e dar-se-ão um breve mas apaixonado beijo, ele puxará e ajustará a cadeira para ela, para depois tornar-se a sentar.” Da maleta no chão, o homem puxou um jornal e começou a ler, e em intervalos breves parava e mirava o horizonte, fazia o reconhecimento do ambiente, tornava a ler. “Não, ele não parece ter um ar apaixonado, senão nervoso. Decerto são negócios. Em breve há de chegar então outro homem de terno. O primeiro irá se levantar, um aperto de mãos forte, o outro vai sentir a sua mão suada. Talvez uma entrevista de emprego. Não, não num café. Uma extorsão, talvez. Pagamento de sequestro. Neste caso o aperto de mãos será rápido, o primeiro homem já pega a maleta e larga em cima da mesa, o outro pede mais discrição, diz ao primeiro que se sente, coloca a maleta de volta no chão, mas desta vez ao seu lado, começa a negociar a soltura…” O homem parou de ler. Dobrou o jornal impacientemente, largou-o em cima da mesa e tomou outro gole. Olhou o relógio, o horizonte. Puxou do bolso a carteira e largou debaixo do pires uma nota de cinco euros. Tomou o último gole de café, pegou o jornal, a maleta e foi embora. Desconsolada por mais uma história da qual nunca saberá o fim, a xícara foi dali levada de volta à cozinha.

- Às vezes me pergunto por que foi que os Maias fizeram um calendário até 2012. Alguns interpretam isto como uma previsão do fim do mundo, eu particularmente acho que, mais do que isto, era uma previsão de que o europeu viria acabar com a civilização deles antes disso, logo, eles não precisariam mais de calendário, afinal. Se era este o caso, parece que estavam certos.

- Teresa era uma moça caseira. Morena alta e forte, trabalhava como cozinheira em uma penitenciária; um trabalho braçal que reforçava seus bíceps e cansava sua coluna. Mas Teresa era uma pessoa doce. Tentava fazer da cozinha o seu segundo lar, volta e meia deixando aqui e ali um itenzinho de decoração sem que as outras percebessem, deixando a cozinha com o seu toque. Um dia levou à cozinha um calendário, onde marcou os aniversários das colegas, para que pudessem sempre ter algum sopro de alegria dentro da triste e suja realidade da cozinha penal; que fizessem uma pausa para os parabéns e um cafezinho. Dois dias depois, o calendário sumira da parede. Ninguém sabe, ninguém viu.
Noutra oportunidade, cantaram os parabéns de Odete. Não havia bolo, ninguém ali tinha tempo para cozinhar além do que já cozinhavam por obrigação e nem se importava o suficiente para gastar dinheiro nessas bobagens. Mas havia café, e havia a pausa do cafezinho, onde havia Teresa e a sua xícara. A sua pequena xícara de cerâmica, branca com flores amarelas, nesta tarde serviu o seu último café àquela morena de ombros másculos. Ao final do expediente, Teresa lavou seu miúdo artefato, e instintivamente deitou-o no escorredor de louça, esquecendo-o ali. Ao voltar no dia seguinte, não mais encontrou as flores amarelas da sua xícara.
Teresa não era uma pessoa literata e não estudou além da oitava série, mas se indagava se não seria irônico ter seus itens furtados dentro de uma penitenciária.

Publicado por: Repolho | Junho 6, 2011

Figuras de linguagem: Antítese

Quero escrever mas não quero escrever.

Segue, portanto, um texto sem palavras.

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Publicado por: Repolho | Março 8, 2011

Irritação

Eu não gosto das pessoas irritadas comigo. Eu não gosto nem de achar que alguém está irritado comigo. Fico numa ânsia de fazer tudo ficar bem, mesmo que a melhor maneira de atingir este objetivo seja esperando o tempo passar. Simplesmente me incomoda saber que a pessoa está irritada, triste, zangada e o culpado por isso posso ser eu. Fico com a impressão de que tenho que fazer algo pra “consertar” isso – bom, às vezes tenho mesmo, mas não é sempre o caso, ou então tentar consertar, em certas ocasiões, só atrapalha. Enfim, me agonia.

Publicado por: Repolho | Fevereiro 12, 2011

Eu tenho um pimentão vermelho e lustroso dentro do meu peito.

Às vezes dá um negócio no peito que eu penso que é meu coração se esvaindo, murchando, ou enchendo, ou quebrando amiúde, ou algo assim, já não sei mais o que acontece nesses momentos em que a gente se sente emocionalmente perdido. É tal qual um aperto, uma queimação, uma dor que brota no âmago mais íntimo (pleonasmo, sim, mas não é bonita essa palavra, âmago?) e, sem alarde, desperta ao mundo numa lágrima tímida e solitária, que carrega o fardo dessa sensação desagradável; uma sensação que ora se esvai, ora vê-se presa por horas naquela ínfima lágrima que insiste em não cair para deixar tranquilo o peito inquieto.
Mas também pode ser que seja uma azia; culpa do pimentão.

Publicado por: Repolho | Fevereiro 2, 2011

Instant Messaging – Da ficção

Tem coisas que só mensageiros instantâneos e uma fruta com imaginação fértil fazem por você.

(…)
Repollo: teu futuro segundo marido
Aubergine: oi?
Repollo: o dan
o primeiro vai ser o wagner
Aubergine: nããããão
o primeiro vai ser wagner
Repollo: ah, não era o dan..era o cara que eu não lembro o nome
Aubergine: depois vamos nos separar mas continuaremos amigos
Repollo: do que querem as mulheres
Aubergine: aí eu vou me envolver com o michel melamed
ele vai ficar amigo do wagner tb
Repollo: mas vcs não serão amigos como ele era da debora bloch
antes de ele morrer
Aubergine: e teremos altas conversas
Repollo: pq vcs terão feito ousadias
Aubergine: sim, mas eu e wagner teremos uma história de amor a vida toda
pq separados seremos amigos
e vai ficar aquela tensao sexual eterna
de vez em quando estaremos discutindo teatro e filosofia e vamos fazer ousadias de novo
nos amaremos eternamente
e ele estará casado com outra
e eu não estarei casada, mas namorando alguém
e vamos fazer ousadias que nao serão consideradas traição
coisa de artista
Repollo: hum, saquei
Aubergine: vamos até tentar ficar juntos de novo por uns meses, qdo a esposa dele descobrir nossa escapulida
mas nao vai dar certo
a vida nao vai querer que dê certo
mas cada vez que nos virmos nos amaremos com os olhos
apesar de nao mais fazer ousadia
apenas seguiremos nossas vidas sabendo que somos um do outro
e sabe o que é MAIS impressionante?
é que vc nao me freia!

Publicado por: Repolho | Janeiro 31, 2011

#MinhaCabecaDuranteAAula

Proxy… Java… Estou que nem aquele vídeo do CollegeHumor, como era mesmo? *repassa o vídeo na cabeça* Olha o cara ali, praticamente deitou na mesa. Será que ele tá dormindo? A guria do lado olhou pra ele com tom reprovador. Fez um comentário com a colega. Deve ter dormido mesmo. Será que vai rolar aquela cervejinha com o pessoal hoje à noite? Vou mandar uma mensagem pra confirmar. *manda mensagem* Ok, vou largar o celular, eu preciso prestar atenção na aula. Por que eu nao consigo prestar atenção? Esse cara aqui do lado tá atrapalhando, ele nao para de conversar. Já estamos na metade, grande vitória! Vou ver se tem algo novo no twitter. *checa o twitter e responde um tweet* A professora tá olhando pra mim, melhor largar o celular. Factory… Services… Tô ficando com sono… Não, sem dormir na primeira aula. *bebe água* Tengo que confesar que a veces no me gusta tu forma de ser… Por que essa música nao me sai da cabeça? Object… Abstract… Será que alguém respondeu a minha mensagem? *checa o celular e aproveita pra olhar o e-mail* Nada…” et cetera.

Publicado por: Repolho | Janeiro 15, 2011

Eu não acredito em destino.

Tampouco acredito no livre-arbítrio.

Ofereceria um gole a Descartes, mas não quero sujar o chão do quarto.

Publicado por: Repolho | Janeiro 8, 2011

Diálogos de Inocêncio (III)

- Às vezes não te dá uma vontade de apenas perder a razão e quebrar tudo? Tipo, sei lá, jogar uma garrafa na parede, quebrar uma porra duma janela ou esmurrar um carro velho com um bastão de beisebol?
- E por que eu iria quebrar tudo?
- Não sei, pra extravasar, botar todos os seus demônios pra fora, mostrar pra si mesmo que você tá vivo. Talvez seja eu. Eu que cansei de ser compreensivo, de sempre entender tudo. Esse é o meu problema, “eu entendo”. Você tem um problema comigo, me fala sobre ele e eu entendo. A solução desse problema envolve você me dar um beliscão, um chute no saco, parar de falar comigo, me excluir da sua vida, e eu vou ouvir e vou entender, e vou dizer “é, eu entendo seu problema, e se você acha que essa é a melhor solução, vá logo, me dê um tiro na cara”. Pois eu tô cansado de ser compreensivo, eu queria só uma vez não entender, não concordar, gritar na sua cara “o que você pensa que tá fazendo comigo?!” e me revoltar, quebrar tudo. Fazer como eu disse antes, entrar no ferro velho com um bastão de beisebol e me divertir, porque, afinal, bater em alguém é que eu não iria. Mas isso seria o suficiente pra mim, eu me sentiria mais leve, pelo menos.
- Você não tem como saber isso se você nunca fez o que está descrevendo.
- É… Mas é um palpite bem razoável.

Publicado por: Repolho | Junho 25, 2010

Dunga, o novo Dourado

Seria Dunga o novo Dourado?

Ele fala merda, mas fala na cara! Ele não tem medo de ninguém! Afinal, na seleção, ele tem o poder absoluto!

Assim, seria Galvão o Dicesar, com a sua voz irritante e comentários infelizes?

#DiaSemGlobo é como o Dourado Facts? Algo como uma campanha online exaltando o poder absoluto do “mocinho”?

Quem será que vai vencer esse BBB? Será que o Twitter tem audiência suficiente? Será que quando acabar o programa, vamos todos voltar às nossas vidas e assistir a novela como fizemos todos os dias de nossas vidas?

Não percam as cenas do próximo capítulo!

Faça de todos os seus dias um #DiaSemGlobo e um #DiaComLivro.

Publicado por: Repolho | Junho 23, 2010

Diálogos de Inocêncio (II)

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