- Um homem de terno. “Parece apressado, ansioso. Será que espera alguém?”, pensou a xícara. Ora, xícaras não pensam, dirá você, pois eu lhe digo que esta pensa, e até que tem um raciocínio muito rápido. Pensa, logo existe. Era uma xícara de um café da Rue des Abesses, uma legítima xícara de café. Seu interior era preto como a bebida, mesmo quando não havia mais bebida dentro dela. Por fora, branca como só uma xícara de café sabe ser. Tinha o desenho de três grãos de café e, no lado oposto, o de um francês estereotipado, de camisa vermelha e boina. A xícara não conversava com o pires. Se o pires pensava, ela não sabia. Ficava absorta em seus próprios pensamentos. E neste momento pensava sobre o homem de terno, um dos muitos clientes que servira naquela tarde.
Ele parecia aguardar alguém. Olhou ao redor, olhou o relógio. Tomou mais um gole de café. Recostou-se e tentou relaxar. “Será que é a namorada que está pra chegar? E quando ela chegar, ele levantar-se-á, e dar-se-ão um breve mas apaixonado beijo, ele puxará e ajustará a cadeira para ela, para depois tornar-se a sentar.” Da maleta no chão, o homem puxou um jornal e começou a ler, e em intervalos breves parava e mirava o horizonte, fazia o reconhecimento do ambiente, tornava a ler. “Não, ele não parece ter um ar apaixonado, senão nervoso. Decerto são negócios. Em breve há de chegar então outro homem de terno. O primeiro irá se levantar, um aperto de mãos forte, o outro vai sentir a sua mão suada. Talvez uma entrevista de emprego. Não, não num café. Uma extorsão, talvez. Pagamento de sequestro. Neste caso o aperto de mãos será rápido, o primeiro homem já pega a maleta e larga em cima da mesa, o outro pede mais discrição, diz ao primeiro que se sente, coloca a maleta de volta no chão, mas desta vez ao seu lado, começa a negociar a soltura…” O homem parou de ler. Dobrou o jornal impacientemente, largou-o em cima da mesa e tomou outro gole. Olhou o relógio, o horizonte. Puxou do bolso a carteira e largou debaixo do pires uma nota de cinco euros. Tomou o último gole de café, pegou o jornal, a maleta e foi embora. Desconsolada por mais uma história da qual nunca saberá o fim, a xícara foi dali levada de volta à cozinha.
- Às vezes me pergunto por que foi que os Maias fizeram um calendário até 2012. Alguns interpretam isto como uma previsão do fim do mundo, eu particularmente acho que, mais do que isto, era uma previsão de que o europeu viria acabar com a civilização deles antes disso, logo, eles não precisariam mais de calendário, afinal. Se era este o caso, parece que estavam certos.
- Teresa era uma moça caseira. Morena alta e forte, trabalhava como cozinheira em uma penitenciária; um trabalho braçal que reforçava seus bíceps e cansava sua coluna. Mas Teresa era uma pessoa doce. Tentava fazer da cozinha o seu segundo lar, volta e meia deixando aqui e ali um itenzinho de decoração sem que as outras percebessem, deixando a cozinha com o seu toque. Um dia levou à cozinha um calendário, onde marcou os aniversários das colegas, para que pudessem sempre ter algum sopro de alegria dentro da triste e suja realidade da cozinha penal; que fizessem uma pausa para os parabéns e um cafezinho. Dois dias depois, o calendário sumira da parede. Ninguém sabe, ninguém viu.
Noutra oportunidade, cantaram os parabéns de Odete. Não havia bolo, ninguém ali tinha tempo para cozinhar além do que já cozinhavam por obrigação e nem se importava o suficiente para gastar dinheiro nessas bobagens. Mas havia café, e havia a pausa do cafezinho, onde havia Teresa e a sua xícara. A sua pequena xícara de cerâmica, branca com flores amarelas, nesta tarde serviu o seu último café àquela morena de ombros másculos. Ao final do expediente, Teresa lavou seu miúdo artefato, e instintivamente deitou-o no escorredor de louça, esquecendo-o ali. Ao voltar no dia seguinte, não mais encontrou as flores amarelas da sua xícara.
Teresa não era uma pessoa literata e não estudou além da oitava série, mas se indagava se não seria irônico ter seus itens furtados dentro de uma penitenciária.
Confusos, mas bem escritos. Adoro seu blog.
Continue postando sempre, ok?
Beijos
Por: Andressa em Setembro 19, 2011
às 9:49 pm